VALEDOURO

A Guerra das Quatro Bandeiras

Muito antes de existir um reino chamado ValeDouro, já existiam aquelas terras.

As montanhas cortavam o horizonte. As florestas cobriam extensões que poucos homens ousavam atravessar. Rios corriam para o mar.

Nas profundezas da pedra, os anões de GranBerg mantinham suas forjas acesas. Sob as copas das grandes florestas, os elfos percorriam caminhos muito anteriores a qualquer estrada humana. Homens construíam vilas, cultivavam campos, negociavam entre regiões e faziam o comércio crescer entre o interior e a costa.

Havia quatro povos. Quatro territórios. Quatro histórias. Quatro bandeiras.

Não eram um único reino. Não possuíam uma Coroa comum. Não obedeciam ao mesmo exército. Cada povo guardava suas próprias tradições, suas próprias fronteiras e sua própria maneira de enxergar o mundo.

E durante muito tempo isso pareceu suficiente.

Até Kratóvia decidir que aquelas terras lhe pertenciam.

Antes que Kratóvia marchasse

A guerra não começou com exércitos.

Não houve trombetas. Não houve declaração. Nenhum mensageiro atravessou as fronteiras carregando um ultimato.

No começo, sequer havia um inimigo a quem culpar.

Havia apenas ataques.

Uma carroça encontrada tombada à margem de uma estrada. Um comerciante que partira de manhã e jamais chegara à vila seguinte. Um armazém incendiado durante a madrugada. Animais mortos. Pontes danificadas. Mercadorias roubadas. Pequenos povoados atacados por homens que não carregavam bandeira alguma.

Eles não usavam uniformes. Não traziam brasões. Não marchavam em formação. Atacavam rapidamente e desapareciam antes que qualquer força organizada pudesse alcançá-los.

Pareciam bandidos.

Depois pareceram muitos bandidos.

Então começaram a parecer organizados demais para serem apenas bandidos.

As estradas tornaram-se perigosas. Mercadores passaram a contratar escoltas. Alguns deixaram de viajar. Vilas começaram a fechar seus portões antes do anoitecer.

Patrulhas eram enviadas atrás dos responsáveis e encontravam acampamentos abandonados, rastros interrompidos e, algumas vezes, apenas silêncio.

Quando algum grupo era capturado, pouco podia ser provado. Não havia insígnias. Não havia estandartes. Não havia documentos que revelassem de onde tinham vindo.

E enquanto os quatro povos procuravam respostas separadamente, os ataques continuavam.

Uma ponte aqui. Um depósito ali. Uma caravana desaparecida. Uma pequena vila atacada durante a noite.

Nunca o suficiente para provocar uma guerra aberta. Sempre o suficiente para causar medo.

Era exatamente o que Kratóvia desejava.

Antes de conquistar aquelas terras, pretendia cansá-las. Antes de enfrentar seus soldados, queria obrigá-los a correr de um lado para o outro perseguindo sombras. Antes de destruir fortalezas, queria enfraquecer as estradas que as abasteciam.

Antes de enfrentar os quatro povos...

queria mantê-los separados.

Durante algum tempo, funcionou.

Cada povo procurava proteger aquilo que era seu. Cada liderança tentava compreender os ataques dentro de suas próprias fronteiras. Cada estrada fechada prejudicava o comércio. Cada comerciante morto espalhava uma nova história. Cada vila incendiada criava mais medo.

E ninguém podia declarar guerra a um inimigo que oficialmente não estava ali.

Foi uma guerra sem nome. Uma guerra sem bandeiras. Uma guerra de sabotagem.

E Kratóvia acreditou que seria suficiente.

Não foi.

Os povos resistiram. As rotas mudaram. Escoltas começaram a acompanhar caravanas. Vilas organizaram vigias. Patrulhas passaram a permanecer nas estradas. Informações começaram a circular entre territórios que antes pouco compartilhavam.

Quanto mais Kratóvia tentava isolá-los, mais seus ataques começavam a ensinar uma verdade incômoda: o que acontecia com uma vila humana podia afetar uma rota élfica. Uma ponte destruída podia interromper mercadorias destinadas às montanhas. Um armazém incendiado podia provocar fome muito longe dali.

Ainda não havia união.

Mas começava a existir uma percepção.

O problema de um poderia, muito em breve, tornar-se o problema de todos.

Kratóvia precisava de outra estratégia.

E então as sabotagens diminuíram.

Por alguns dias, as estradas ficaram estranhamente tranquilas. Caravanas voltaram a circular. As patrulhas encontraram menos rastros. Alguns acreditaram que os responsáveis haviam desistido. Outros disseram que finalmente haviam vencido aquela estranha onda de violência.

Os mais experientes desconfiaram do silêncio.

Eles estavam certos.

Porque, além das fronteiras, Kratóvia já não escondia seus soldados.

Estava reunindo-os.

E então Kratóvia marchou

Os primeiros relatos pareciam exagerados.

Sempre parecem.

Um viajante disse ter visto soldados suficientes para preencher uma estrada de horizonte a horizonte. Outro afirmou que havia tantas lanças que, à distância, pareciam uma floresta se movendo. Um terceiro jurou que não conseguira contar as colunas.

Ninguém acreditou completamente.

Até que os batedores retornaram.

Dessa vez, não havia dúvida.

Não eram saqueadores. Não eram mercenários. Não eram homens sem brasão atacando sob a proteção da noite.

Era o Exército de Kratóvia.

E estava marchando.

Coluna após coluna. Fileira após fileira. Infantaria. Cavalos. Carroças. Armas. Suprimentos. Mais soldados atrás deles. E mais depois desses.

De longe, primeiro se via a poeira. Uma faixa pálida crescendo sobre o horizonte.

Depois vinham os sons. Metal. Rodas. Animais. Ordens gritadas.

E então...

os passos.

Milhares deles. Cadenciados. Pesados. Ininterruptos.

O chão tremia.

Copos vibravam sobre mesas em casas próximas às estradas. Animais ficavam inquietos antes mesmo que seus donos conseguissem enxergar alguma coisa. Pedras pequenas dançavam sobre o solo.

E então apareciam as primeiras fileiras. Atrás delas, outras. Depois outras. E outras.

Para quem observava das colinas, parecia impossível que tantos homens pertencessem ao mesmo exército.

Durante anos, Kratóvia havia lutado sem mostrar o rosto. Agora fazia questão de ser vista.

A sabotagem não havia quebrado aquelas terras.

Então Kratóvia faria aquilo da maneira antiga. Com homens. Com aço. Com fogo. E com um exército tão numeroso que sua simples marcha deveria convencer qualquer resistência de que lutar seria inútil.

Mas aquelas colunas eram apenas parte da invasão.

Porque Kratóvia não havia escolhido uma fronteira.

Escolhera todas.

A guerra estava em toda parte

Enquanto exércitos kratovianos avançavam pelas estradas e planícies, velas apareceram no horizonte. Navios de guerra aproximavam-se da costa.

Ao mesmo tempo, tropas penetravam pelas grandes florestas.

E nas montanhas, onde muitos acreditavam que nenhuma força invasora seria insensata o bastante para avançar...

Kratóvia avançou.

Pela terra. Pelo mar. Pela floresta. Pelas montanhas.

A intenção era clara.

Atacar todos ao mesmo tempo. Obrigar cada povo a pensar apenas na própria sobrevivência.

Os humanos precisariam defender suas cidades e campos. Os elfos teriam de proteger suas florestas. Os anões seriam obrigados a fechar as passagens das montanhas. As populações costeiras precisariam impedir desembarques.

Nenhum deles teria forças suficientes para ajudar o outro.

Era exatamente aquilo que Kratóvia desejava.

Separados, cairiam.

Por algum tempo, pareceu possível.

A guerra sob as árvores

Os kratovianos entraram nas florestas em formação.

As árvores trataram de desfazê-la.

Grandes colunas tornaram-se fileiras menores. Fileiras tornaram-se pequenos grupos. Os caminhos estreitavam. A luz diminuía sob as copas. O terreno escondia raízes, pedras e declives.

Então começaram as flechas.

Uma. Duas. Dezenas.

Quando os kratovianos encontravam a direção dos disparos, os arqueiros já não estavam lá.

Os elfos conheciam aquelas florestas. Não apenas as trilhas. Conheciam seus sons. Sabiam quando um pássaro havia sido assustado. Quando um galho quebrara sob um peso grande demais para ser animal. Quando folhas haviam sido pisadas recentemente. Quando alguma coisa estava errada.

Kratóvia possuía números.

A floresta não se importava.

Entre aqueles que combateram sob suas árvores estava Cassandra Arven.

Cassandra viu os primeiros invasores. Viu florestas transformarem-se em campos de batalha. Viu companheiros morrerem. Viu humanos entrarem em territórios que antes talvez não fossem recebidos com confiança — agora trazendo reforços.

E começou a perceber que aquela guerra estava fazendo algo que nenhum acordo diplomático conseguira fazer.

Estava obrigando povos diferentes a aprender uns sobre os outros.

Ela ainda não sabia quantas das pessoas que encontraria durante aqueles anos permaneceriam ligadas à sua vida por séculos.

Entre elas...

um homem chamado Mauricius.

Mauricius

Quando a guerra começou, Mauricius não era rei.

Não era general. Não era capitão. Não era sequer um militar.

Era um homem comum.

Um entre milhares de homens e mulheres que tiveram suas vidas destruídas pela guerra.

No começo, Mauricius possuía o mesmo objetivo de quase todos os outros.

Sobreviver.

Mas guerras possuem uma maneira cruel de revelar aquilo que existe dentro das pessoas.

Quando uma retirada precisava ser organizada, Mauricius ajudava. Quando alguém precisava tomar uma decisão, ele decidia. Quando o medo ameaçava transformar homens em uma multidão desesperada, Mauricius conseguia fazê-los ouvir. Quando havia feridos que ainda não tinham conseguido abandonar uma posição, preocupava-se primeiro com eles.

Pouco a pouco, pessoas começaram a procurá-lo.

Primeiro algumas. Depois muitas.

Uma responsabilidade levou a outra. Um pequeno grupo tornou-se maior. E chegou um momento em que homens aguardavam a decisão de Mauricius antes de tomar as próprias.

Ele não tinha recebido uma patente que justificasse aquilo.

A confiança veio primeiro.

A autoridade veio depois.

Com o passar dos anos, Mauricius passou a comandar tropas humanas.

Então aconteceu algo que, antes da guerra, poucos julgariam possível.

Os elfos começaram a ouvi-lo.

Não porque Mauricius tentasse fazê-los lutar como humanos. Ao contrário.

Ele aprendeu a ouvi-los. Aprendeu que uma floresta podia ser tão importante quanto uma muralha. Aprendeu que um caminho invisível para um homem podia ser evidente para um elfo. Aprendeu que liderança não significava transformar todos em cópias de si mesmo.

E os elfos perceberam.

Com o tempo, tropas élficas também passaram a combater sob sua liderança.

Cassandra viu essa transformação.

O homem comum que a guerra engolira estava se tornando alguém que povos diferentes aceitavam seguir.

Ainda não havia rei.

Ainda não havia ValeDouro.

Havia apenas Mauricius.

As montanhas não se curvaram

Kratóvia também avançou contra GranBerg.

Nas planícies, milhares de soldados significavam poder.

Nas montanhas, milhares de soldados podiam significar apenas milhares de homens tentando atravessar a mesma passagem estreita.

Os anões conheciam aquilo melhor do que qualquer invasor.

Conheciam cada desfiladeiro. Cada garganta. Cada trilha capaz de suportar uma carroça. Cada passagem onde poucos guerreiros poderiam impedir o avanço de centenas.

E transformaram as montanhas em defesa.

Pontes foram desmontadas antes que Kratóvia pudesse utilizá-las. Passagens foram bloqueadas. Caminhos foram estreitados. Muros surgiram onde antes existia apenas pedra. Madeira e rocha tornaram-se barricadas. Encostas foram preparadas para desabar. Túneis permitiam deslocamentos que os invasores não conseguiam acompanhar.

Onde Kratóvia via apenas terreno, os anões viam estrutura.

E estruturas podiam ser alteradas.

GranBerg não lutou apenas com guerreiros.

Lutou com engenheiros. Ferreiros. Construtores. Mineradores. Carpinteiros. Transportadores.

Gente que sabia que uma guerra não é vencida apenas por quem segura uma arma.

Uma posição só pode resistir se houver alimento. Uma espada só serve enquanto puder ser reparada. Uma tropa só continua lutando se conseguir receber suprimentos. Um ferido só pode sobreviver se houver alguém para transportá-lo. Uma ponte pode ser tão importante quanto cem soldados.

Os anões sabiam disso.

E Kratóvia aprendeu.

Os que já estavam lá

Entre aqueles que viveram os anos da Guerra das Quatro Bandeiras havia anões cujos nomes ainda seriam conhecidos séculos depois.

Odrik Runapedra já caminhava pelo mundo.

Para um humano, sua idade já seria extraordinária. Para um anão, significava que ele possuía memória suficiente para compreender que guerras aparentemente impossíveis também terminam.

Gundrik Forja-Negra também estava vivo.

Ainda distante do homem que gerações futuras conheceriam por seus títulos e sua reputação, pertencia à geração que viu GranBerg ser obrigada a aplicar todo seu conhecimento não para construir algo destinado a durar...

mas para impedir que tudo aquilo que já existia fosse destruído.

Eles viram as passagens serem defendidas. Viram posições serem abandonadas e retomadas. Viram estruturas erguidas durante a noite. Viram metal ser trabalhado até as mãos sangrarem. E viram anões deixarem as montanhas para ajudar aliados em outras frentes.

Isso talvez tenha sido ainda mais importante.

GranBerg poderia ter fechado seus portões.

Não fechou.

Engenheiros anões começaram a aparecer em regiões humanas. Ferreiros reparavam armas que não pertenciam ao seu povo. Construtores reforçavam posições élficas. Pontes destinadas a transportar soldados de outras bandeiras eram erguidas por mãos anãs.

Kratóvia havia atacado as montanhas para isolar GranBerg.

Acabou empurrando os anões para mais perto dos outros povos.

Aurus

Enquanto exércitos lutavam por cidades, florestas e montanhas, havia outra guerra acontecendo longe das grandes formações.

Batedores. Mensageiros. Rastreadores. Sabotadores. Caçadores.

Foi nesse mundo que um camponês chamado Aurus encontrou seu lugar.

Antes da guerra, Aurus conhecia campos. Animais. Plantas. Florestas.

Sabia rastrear. Sabia caçar. Sabia reconhecer a aproximação de uma tempestade. Sabia andar por regiões onde soldados treinados faziam barulho suficiente para anunciar sua presença a quilômetros de distância.

E sabia usar um arco.

A guerra transformou essas habilidades em coisas valiosas.

Aurus começou guiando. Depois procurando inimigos. Depois procurando pessoas. Rotas. Acampamentos. Movimentos de tropas.

Onde outros enxergavam apenas terra e vegetação, Aurus enxergava sinais.

Um galho quebrado. Cinzas recentes. Pegadas. Um animal assustado. Uma trilha usada algumas horas antes.

Aurus tornou-se útil.

Depois tornou-se necessário.

E durante aqueles anos aproximou-se de um jovem humano chamado Dante D'Arms.

Dante D'Arms

Dante era rápido.

Um espadachim ágil. Armadura leve. Sem escudo. Preferia movimento à proteção pesada.

Com o tempo, tornou-se muito mais do que um companheiro de Aurus.

Aprendiz.

Amigo.

Alguém em quem Aurus confiava.

Os dois atravessaram regiões nas quais grandes unidades militares jamais conseguiriam operar sem serem percebidas.

Mas havia inimigos naquela guerra que não usavam apenas aço.

Um deles se chamava Malachar Veyr.

O Mestre das Almas.

Um necromante.

Aurus começou a persegui-lo.

O que aconteceu durante essa perseguição jamais foi registrado por completo. Algumas histórias discordam. Outras simplesmente terminam.

Mas sabe-se que Aurus encontrou Malachar.

E que Malachar o feriu.

Aurus sobreviveu.

Porém não voltou sozinho daquele encontro.

Algo voltou com ele.

A Maldição de Sangue.

A Maldição de Sangue

No começo, poderia parecer uma dádiva.

Quando Aurus lutava, a dor diminuía. O cansaço desaparecia. O medo deixava de existir. Seus movimentos se tornavam mais violentos. Mais precisos. Mais rápidos.

Quanto mais o combate continuava, mais difícil se tornava detê-lo.

Mas havia um problema.

A maldição não queria vitória.

Queria sangue.

E não compreendia limites.

Quanto mais Aurus lutava, menos restava do homem que sabia quando parar.

Até que chegou o dia em que os inimigos acabaram.

E Aurus continuou.

Dante estava perto.

Talvez tenha sido o primeiro a perceber.

Chamou por ele.

Aurus não respondeu.

Tentou detê-lo.

Não queria ferir seu mestre.

Aurus não tinha a mesma hesitação.

Dante caiu.

Sua arma escapou.

Aurus ficou sobre ele.

A lâmina tocou seu pescoço.

— Aurus!

Nada.

A pressão aumentou.

A pele se abriu.

Um fio de sangue apareceu.

— AURUS!

Alguma coisa mudou.

Por um instante, Aurus reconheceu aquela voz.

Reconheceu Dante.

Reconheceu o sangue.

E parou.

Olhou para a arma em sua mão. Para o amigo no chão.

E compreendeu o que quase havia feito.

A ferida que não queria fechar

Dante sobrevivera.

Pelo menos parecia.

O corte em seu pescoço era pequeno diante das feridas que a guerra produzia diariamente.

Mas nos dias seguintes algo começou a acontecer.

Febre. Fraqueza. Dor.

A ferida não se comportava como deveria.

Os curandeiros humanos não conseguiam compreender.

Havia algo naquele corte. Algo que não pertencia a uma lâmina comum.

Os elfos intervieram.

Utilizaram conhecimentos antigos. Métodos que poucos humanos compreendiam.

Durante dias, lutaram para preservar a vida de Dante.

Conseguiram.

A febre cedeu. A ferida fechou. Dante voltou a caminhar.

A cicatriz permaneceu.

Por muito tempo, todos acreditaram que a história havia terminado ali.

Não havia terminado.

Os anos passaram.

Depois décadas.

Homens que haviam lutado ao lado de Dante envelheceram. Alguns morreram. Seus filhos cresceram. Os filhos de seus filhos também.

Dante envelhecia.

Mas devagar.

Devagar demais.

Ninguém conseguiu explicar.

Talvez alguma coisa da Maldição de Sangue tivesse atravessado a lâmina de Aurus. Talvez a cura élfica tivesse alterado aquilo que encontrou dentro dele. Talvez nenhuma das duas coisas, isoladamente, fosse responsável.

Talvez tivesse sido o encontro entre ambas.

Necromancia e cura.

Morte e vida.

Dois poderes tentando ocupar o mesmo corpo.

Dante não sabe.

Os elfos nunca deram uma resposta definitiva.

Aurus prefere não falar a respeito.

Existe apenas uma certeza.

Dante D'Arms é humano.

Deveria ter morrido há séculos.

Mas ainda vive.

O Juramento

Depois de quase matar Dante, alguma coisa terminou dentro de Aurus.

A guerra continuava. Kratóvia ainda precisava ser derrotada. Homens continuavam lutando. Elfos continuavam defendendo suas florestas. Anões continuavam segurando as passagens das montanhas.

Mas Aurus acabara de encontrar um inimigo que não sabia vencer.

Aquilo que Malachar deixara dentro dele.

Dante não estava presente quando Aurus se afastou.

Cassandra estava.

Ela o acompanhou.

Em silêncio.

Aurus reuniu suas armas.

Uma após outra.

As mesmas que carregara durante a guerra. As mesmas que haviam defendido companheiros. As mesmas que haviam tirado vidas. As mesmas que, pouco antes, quase haviam matado seu amigo.

Então começou a cavar.

Não pediu ajuda.

Cassandra não ofereceu.

Ela permaneceu a certa distância.

Observando.

Quieta.

A terra se acumulava ao lado do buraco.

E Aurus chorava.

Não tentou esconder.

Não havia ali o guerreiro. Não havia o rastreador. Não havia o homem sobre quem gerações futuras contariam histórias.

Havia apenas um homem aos prantos, cavando uma sepultura para as armas que quase haviam matado alguém que amava.

Cassandra compreendeu o peso daquela atmosfera.

Em sua longa vida, já havia conhecido muitos humanos. Vira gerações nascerem. Envelhecerem. Desaparecerem. Talvez por isso fosse fácil observá-los como criaturas breves.

Naquele dia, alguma coisa mudou.

Cassandra não viu apenas um humano.

Viu Aurus.

Viu sua culpa. Seu medo. Sua dor.

E pela primeira vez em sua vida élfica sentiu verdadeira empatia por um homem.

Permaneceu em silêncio.

Porque compreendeu que algumas dores não pedem consolo.

Pedem apenas que alguém reconheça que existiram.

Quando terminou de cavar, Aurus colocou suas armas na terra.

Uma. Depois outra. E outra.

Até restar apenas o arco.

Ele olhou para ele.

Não o enterrou.

O arco existia antes da guerra. Antes de Kratóvia. Antes de Malachar. Antes da Maldição de Sangue.

Era caça. Sobrevivência. Floresta.

Parte do homem que Aurus fora antes que o mundo lhe ensinasse outras maneiras de matar.

O arco permaneceu.

Todo o restante desapareceu sob a terra.

Aurus cobriu as armas.

Quando terminou, permaneceu diante daquele pedaço de chão revolvido.

As mãos sujas.

O rosto molhado.

Cassandra continuava ali.

Então Aurus jurou.

Jurou que não voltaria a empunhar aquelas armas.

Jurou que não permitiria que a Maldição de Sangue encontrasse novamente um caminho até aqueles que amava.

Jurou não voltar a lutar.

Não por glória. Não por ordens. Não por vingança. Não por orgulho.

Se algum dia quebrasse aquele juramento, teria de existir uma razão maior que ele próprio.

Algo verdadeiramente nobre.

Talvez...

uma última oportunidade de redenção.

Cassandra ouviu cada palavra.

Não respondeu.

Apenas permaneceu.

Séculos poderiam passar. Livros poderiam transformar Aurus em lenda. Aprendizes poderiam conhecer apenas Grand Aurus.

Mas Cassandra saberia.

Ela vira o homem antes da lenda.

Vira Aurus chorar. Vira-o enterrar suas armas.

E estava lá...

quando Aurus fez seu juramento.

Quatro guerras começaram a se tornar uma

A guerra não parou por causa deles.

Guerras nunca fazem isso.

Kratóvia continuava pressionando por terra. Suas tropas ainda penetravam pelas florestas. As montanhas permaneciam em combate. Navios kratovianos continuavam ameaçando a costa.

Mas os quatro povos já não eram os mesmos do início da invasão.

Mensagens atravessavam fronteiras. Informações circulavam. Um movimento observado pelos elfos chegava às tropas humanas. Uma coluna que se dirigia às montanhas era comunicada aos anões.

Engenheiros de GranBerg reforçavam posições fora de seu território. Ferreiros reparavam armas de outros povos. Humanos apareciam onde os elfos precisavam de homens suficientes para manter uma linha. Marinheiros transportavam suprimentos destinados às montanhas. Feridos eram tratados por mãos de outra bandeira.

A guerra de um povo começava a tornar-se a guerra de todos.

Kratóvia havia atacado cada fronteira para impedir que isso acontecesse.

E conseguiu exatamente o contrário.

Mauricius aprende a liderar quatro mundos

Mauricius estava no centro dessa transformação.

Ele não comandava os anões.

Jamais comandou.

GranBerg tinha seus próprios líderes. Suas próprias tradições. Sua própria maneira de fazer guerra.

Mauricius aprendeu a respeitar isso.

Quando precisava da ajuda anã, conversava. Ouvia. Apresentava o problema. Planejava ao lado deles.

Às vezes discordava.

Às vezes era obrigado a admitir que estavam certos.

Com os elfos aprendera outra forma de enxergar o terreno.

Com os anões aprendeu outra forma de enxergar o tempo.

Humanos perguntavam: quantos homens ainda temos?

Elfos perguntavam: por onde o inimigo pretende passar?

Anões muitas vezes perguntavam: quanto tempo precisamos resistir?

Era uma pergunta diferente.

Porque dela surgiam outras.

Quanto alimento havia? Quanto tempo uma ponte suportaria? Quanto levaria para abrir outra passagem? Quanto demoraria para reforços chegarem? Quanto tempo Kratóvia precisaria para reorganizar um ataque?

Mauricius começou a compreender que uma guerra não era apenas uma sequência de batalhas.

Era uma estrutura.

E estruturas podiam ser compreendidas.

O avanço

Durante anos, as Quatro Bandeiras resistiram.

Então chegou o momento em que Kratóvia parou de avançar.

Primeiro em uma frente.

Depois em outra.

Uma estrada foi recuperada. Uma passagem voltou às mãos dos defensores. Uma vila foi libertada. Uma rota marítima pôde ser utilizada novamente.

As forças kratovianas começaram a descobrir que cada quilômetro conquistado precisava ser mantido contra quatro povos que agora compartilhavam informação, recursos e experiência.

A guerra começou a mudar.

Pela primeira vez, as Quatro Bandeiras não estavam apenas tentando sobreviver.

Estavam avançando.

Os elfos pressionavam sob as árvores. Os humanos recuperavam campos e estradas. Os anões empurravam Kratóvia para fora das passagens das montanhas. Nas costas, os invasores encontravam cada vez mais dificuldade para manter suas operações.

E Mauricius avançava com homens e elfos que confiavam nele.

Ainda não tinha coroa.

Ainda não havia trono esperando.

Ainda não existia um reino chamado ValeDouro.

Mas quando Mauricius falava...

homens ouviam.

Elfos ouviam.

E os aliados anões consideravam suas palavras.

O recuo de Kratóvia

Durante anos, o som dos passos kratovianos anunciara medo.

Agora aqueles passos começavam a seguir na direção oposta.

Posições foram abandonadas. Colunas recuaram. Estradas que haviam custado inúmeras vidas voltaram a ficar abertas. Fortificações improvisadas foram deixadas para trás.

Batedores avançaram cada vez mais longe.

Até que, um dia, chegaram a uma posição onde esperavam encontrar a próxima linha inimiga...

e não encontraram ninguém.

Kratóvia estava indo embora.

A guerra terminara.

No começo, ninguém comemorou.

Era difícil acreditar.

Homens observavam estradas vazias esperando que outro exército surgisse. Elfos caminharam novamente por florestas onde ainda havia flechas presas às árvores. Anões atravessaram passagens marcadas pelo combate. Pescadores olharam para o horizonte e viram apenas o mar.

Então os sinos tocaram.

Dessa vez não anunciavam perigo.

Anunciavam vitória.

Quatro Bandeiras diante da paz

As quatro bandeiras ainda estavam de pé.

Rasgadas. Queimadas. Marcadas pelo tempo.

Mas de pé.

E surgiu uma pergunta que ninguém precisara responder enquanto Kratóvia estivesse presente.

O que aconteceria agora?

Poderiam simplesmente voltar ao mundo anterior?

Os anões para as montanhas. Os elfos para as florestas. Os humanos para suas terras. Cada povo novamente preocupado apenas com os próprios problemas.

Era possível.

Mas como voltar a chamar de estrangeiro aquele que protegera sua vida?

Como fechar uma fronteira para quem carregara seus feridos?

Como esquecer o povo que reconstruíra uma ponte para que seu exército pudesse escapar?

Como olhar para alguém com quem se dividira alimento durante um cerco e dizer novamente: isso não é problema meu?

A guerra havia mudado os quatro povos.

União, porém, não poderia significar submissão.

Nenhuma bandeira seria apagada.

Nenhum povo abandonaria sua identidade.

Precisavam encontrar uma forma de permanecer juntos sem deixar de ser quem eram.

A solução foi algo que não existia quando a guerra começou.

Um reino.

Faltava escolher quem deveria conduzi-lo.

A escolha de Mauricius

Havia nobres. Líderes. Guerreiros. Comandantes. Homens e mulheres de linhagens antigas. Pessoas que possuíam títulos antes mesmo de Kratóvia aparecer.

E havia Mauricius.

Um homem que não possuía patente quando tudo começou. Que aprendera a liderar humanos. Que conquistara a confiança dos elfos. Que aprendera a trabalhar ao lado dos anões sem tentar comandá-los. Que havia passado anos fazendo algo muito mais difícil do que ordenar:

ouvindo.

Mauricius não conquistara aqueles povos.

Não os derrotara.

Não os obrigara a se curvar.

Conquistara algo muito mais difícil.

Sua confiança.

Quando os quatro povos decidiram que a união construída durante a guerra não deveria morrer com a paz, escolheram Mauricius para conduzi-los.

Ele não tomou a Coroa.

Recebeu-a.

Somente então tornou-se Mauricius I.

E somente então surgiu um reino capaz de reunir as Quatro Bandeiras.

ValeDouro.

Kratóvia havia marchado contra quatro povos.

Quando a guerra terminou...

deixou diante de si um reino.

O que a guerra deixou

A Guerra das Quatro Bandeiras terminou.

Suas consequências não.

Os anões voltaram às suas forjas carregando perguntas novas. Durante a guerra, haviam visto fortificações cair. Passagens serem defendidas por poucos contra muitos. Máquinas simples falharem quando mais eram necessárias.

Os desafios daqueles anos alimentariam estudos que continuariam muito depois da paz.

Entre eles estavam pesquisas que, gerações mais tarde, dariam origem a tecnologias que os soldados da Guerra das Quatro Bandeiras jamais chegaram a utilizar.

Armas de fogo.

Na época da guerra, eram apenas experimentos. Ideias. Mecanismos perigosos. Projetos que ainda não podiam ser levados a um campo de batalha com confiança.

Os grandes canhões que um dia defenderiam ValeDouro pertenciam ao futuro.

Aquela geração venceu sem eles.

Com aço. Arcos. Escudos. Pedra. Engenharia. Estratégia.

E pessoas.

Talvez por isso os anões mais antigos jamais tenham permitido que gerações posteriores acreditassem que uma arma vence uma guerra.

Armas ajudam.

Pessoas permanecem.

Aqueles que ainda se lembram

Séculos passaram.

Para a maioria dos habitantes de ValeDouro, a Guerra das Quatro Bandeiras pertence aos livros.

Mas nem todos precisam deles.

Cassandra Arven ainda se lembra.

Ela viu Mauricius antes da Coroa. Viu os elfos aprenderem a confiar em humanos. Viu Kratóvia atravessar as florestas. Viu Aurus cair aos prantos diante de suas armas.

E ouviu o juramento.

Nas montanhas, anões antigos também guardam memórias daquele tempo.

Odrik Runapedra estava vivo.

Gundrik Forja-Negra estava vivo.

Algumas memórias de GranBerg talvez tenham sido gravadas em livros. Outras, em pedra. E algumas vivem apenas naqueles que ainda respiram.

Aurus também permanece.

Por quê?

Ninguém sabe ao certo.

Talvez Malachar Veyr tenha deixado nele mais do que uma maldição. Talvez a explicação esteja em tratamentos recebidos há muito tempo. Talvez a resposta seja outra.

Aurus não explica.

Dante também permanece.

Humano.

Séculos além do tempo que deveria ter recebido.

Uma cicatriz ainda marca seu pescoço.

Talvez algo da Maldição de Sangue tenha passado para ele. Talvez os elfos, ao salvá-lo, tenham mudado seu destino. Talvez tenha sido a combinação das duas coisas.

Ninguém sabe.

E talvez seja melhor assim.

Alguns mistérios envelhecem melhor quando não encontram resposta.

ValeDouro, hoje

Hoje, crianças aprendem sobre Mauricius I como se ele sempre tivesse sido rei.

Esquecem facilmente que houve um tempo em que ele era apenas um homem.

Visitantes olham para GranBerg e encontram um povo famoso por suas obras e sua engenharia. Poucos imaginam quantas dessas tradições foram moldadas pelos anos em que cada passagem da montanha precisou ser defendida.

Aprendizes conhecem Grand Aurus.

Veem o arqueiro. O mestre. A figura sobre a qual circulam histórias demais.

Poucos conseguem imaginar o homem ajoelhado no chão, aos prantos, enterrando suas armas.

Dante ainda caminha ao seu lado.

Cassandra ainda lembra.

E as Quatro Bandeiras, mesmo séculos depois, continuam fazendo parte da identidade do reino.

ValeDouro vive em paz.

Os mercados estão abertos. Navios entram nos portos. Estradas atravessam o reino. As florestas permanecem antigas. As forjas de GranBerg continuam acesas.

Parece difícil imaginar outra grande guerra.

Talvez seja esse o problema.

Porque a Guerra das Quatro Bandeiras também não começou com um grande exército aparecendo no horizonte.

Começou com uma carroça. Um comerciante desaparecido. Uma ponte danificada. Uma pequena vila atacada por homens sem bandeira.

Coisas pequenas.

Coisas que pareciam não ter relação umas com as outras.

Até que tiveram.

É por isso que os mais antigos habitantes de ValeDouro ainda prestam atenção às pequenas coisas.

Uma patrulha atrasada. Um viajante que não chega. Uma luz onde não deveria existir. Pegadas estranhas sob as árvores. Uma mensagem que desaparece. Um navio que não responde. Um movimento incomum nas montanhas.

Porque eles sabem algo que aqueles que nasceram em paz ainda precisam aprender:

quando o chão começa a tremer... a guerra provavelmente começou muito antes.

Mauricius era apenas um homem quando o mundo o chamou.

Aurus era apenas um camponês.

Dante era apenas um jovem seguindo alguém em quem confiava.

Nenhum deles acordou sabendo que entraria para a História.

Talvez ninguém entre.

Talvez a História simplesmente encontre pessoas comuns...

e lhes dê uma escolha.

Em algum lugar de ValeDouro, talvez exista agora alguém atravessando uma estrada. Entrando em uma taverna. Chegando ao Liceu. Cruzando os portões de uma cidade. Observando o mar. Ouvindo um ruído entre as árvores.

Alguém sem título. Sem lenda. Sem qualquer motivo para imaginar que seu nome possa um dia ser lembrado.

Exatamente como Mauricius.

As Quatro Bandeiras já tiveram sua guerra. Aurus já fez seu juramento. Cassandra já testemunhou mais do que muitos livros poderiam registrar. Dante já viveu mais do que qualquer homem deveria viver. Odrik e Gundrik ainda carregam memórias de uma época que quase ninguém mais viu.

Essas são as histórias deles.

A próxima...pode ser a sua.

Bem-vindo a ValeDouro.
E preste atenção às pequenas coisas.